Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Maio 15 2009

 

SEI QUE VOLTAS SEMPRE
viagem no sebastianismo


Livro de Mário Matta e Silva

 

 

No dia 12 de Maio de 2009, na bonita  sala de exposições da Livraria-Galeria Verney, em Oeiras, autêntico  "oásis da cultura" 

 

- lugar onde os Poetas são acarinhados e divulgados. Ou não fosse Oeiras a única autarquia que criou um Parque de Poetas, espaço privilegiado onde a Poesia, Escultura e Paisagem coabitam de forma perfeita.

Com Esculturas de Francisco Simões e arquitectura paisagista de Francisco Caldeira Cabral e Elsa Severino, esta obra notável resultou do sonho e da vontade de três  Homens: o Autarca Isaltino de Morais, Poeta David Mourão Ferreira e o Escultor Francisco Simões-,

 

teve lugar a apresentação do livro de poemas de Mário Matta e Silva, "Sei que Voltas Sempre".

 

Presidiram o Chefe de Divisão da Cultura da C.M.Oeiras, Dr. Manuel Machado, o Autor Mário Matta e Silva, Maria Ivone Vairinho, Presidente da Direcção da APP e Professora da Universidade Sénior de Oeiras e Joaquim Carvalho, Pintor e Poeta, autor  da Capa e Desenhos do Texto.

 

Depois das boas vindas do Dr. Manuel Machado,  que cumprimentou todos os presentes e se congratulou com a realização de mais um evento cultural na Livraria-Galeria Verney, seguiu-se a apresentação do livro de Mário Matta e Silva por Maria Ivone Vairinho:

 

 Ao convidar-me para fazer a apresentação do seu livro “Sei que Voltas Sempre”, o Prof. Mário Matta e Silva não me incumbiu de tarefa fácil.

 

Agradeço o seu convite, que muito me honrou, pois além de bom Amigo de há quase 15 anos, é homem de cultura que admiro, que muito tem feito pela Poesia Portuguesa através de Tertúlias que tem dinamizado, pelos muitos Poetas que incentivou e ajudou, pela colaboração valiosa que deu à Universidade Aberta, que acompanhei de muito perto, pois raramente perdia as aulas de sábado no canal 2 da RTP.

 

Agora fazer a apresentação do seu livro...

 

Que poderei dizer senão repetir o que Dulce Matos escreveu, de forma tão clara, tão elucidativa e ao mesmo tempo tão erudita, no Proémio do Livro, em que explica o fenómeno do sebastianismo, desde a batalha de Alcácer-Quibir até aos nossos dias, em que continuamos à espera de Dom Sebastião, “quer venha ou não”, para nos ajudar a construir o Quinto Império de que fala o Padre António Vieira?

 

E que dizer da maravilhosa Recensão de António Manuel Couto Viana que, com a sua enorme sensibilidade de Poeta, soube encontrar na obra de Matta e Silva os versos adequados para justificar esta viagem no sebastianismo, esta agridoce mistura de esperança e desencanto que encontramos em cada poema?

 

O Sebastianismo, com a descrença de um povo que poucas vezes soube encontrar o seu caminho ou quem o soubesse encaminhar para ele, surge logo como algo que não se pode concretizar, alcançar, quando o Poeta escreve, na página 8:

 

INÚTIL

 

Contra Alá

aventura, inútil refrega

numa feroz entrega...

 

De cá para lá

a agressividade do vento

que no retorno cresce

sem o herói que apodrece

pestilento

 

Junho 2008

 

E o mito do encoberto que há-de voltar numa manhã de nevoeiro – a nuvem de pó rubro do deserto onde se perdeu Dom Sebastião de espada em punho – toma forma no poema DERRUBE (página 10), na descrição violenta, sangrenta da batalha dum rei-menino deslumbrado, fanatizado por histórias fantasiosas e fantásticas de  cavaleiros andantes e  cruzados.

 

Nas nuvens de pó do deserto se sumiu D. Sebastião, levando consigo toda uma geração promissora de jovens ilustres, para ganhar forma, para ser luz, símbolo de esperança que nunca morre e ao longo dos tempos ressurge na voz de tantos Poetas.

 

Matta e Silva, de forma inesperada, galga séculos e põe a nu a farsa “desse mito dos mitos”, desculpa esfarrapada para um Portugal que continua sem rumo:

 

MITO DOS MITOS (página 16)

 

Mito dos mitos

Arde em modernidade

Numa reluzente espada

Tombada

Pela ambiciosidade.

 

Mito dos mitos

Cresceu personalizado

Em herói sem heroísmo

Cabalismos

E um povo desencantado.

 

Mito dos mitos

Tornado alma informe

A irradiar sonho dos sonhos

Álibis medonhos

Dum Portugal que dorme

 

Mito dos mitos

Desfiado como herança

Com fados entristecidos

Altar de vencidos

Fieis feitos de esperança.

 

Mito dos mitos

Sobejos de uma batalha

Tornados enfermidade

E em verdade

Ruiu nobre mortalha!

 

Abril 2008

 

O Poeta desenrola o novelo, procura a ponta que o leva à origem que talvez possa justificar o mito.

 

E pela Voz do Poeta (páginas 19 e 20) leva-nos a Sintra e perpetua outro mito: Camões lendo os Lusíadas a Dom Sebastião.  Apenas uma cópia do poema chegou a Dom Sebastião pelas mãos do Conde de Vimioso, D. Manuel de Portugal. O rei recebeu esta cópia com agrado e o apelo do Poeta veio ao encontro do seu desejo utópico de lutar pela fé e pela expansão do reino.

 

Mas Matta e Silva nunca se afasta da coerência do mito e descreve a perda da independência nas areias escaldantes do deserto, faz ouvir a voz de Bandarra, expõe, quase com dureza, o "despudor masoquista" de um "povo brando" que se refugia em "estados d´alma", em temores, em "sóis de Arzila" e espera a volta do rei, coberto de glória, para devolver a independência a Portugal.

 

O Poeta, amargurado, porém, tem que se render à evidência e declarar que


... “a rota de Marrocos tudo muda”
Num feito de forças desiguais
Donde El-Rei não volta mais”. (Épicos Lastimosos - pág. 28)

 

Mas o ciclo vicioso permanece:

 

1.ª quadra pág. 33


Há um ciclo vicioso, inconsciente
Nesta falta de equilíbrio criador
Que navega entre o alívio e a dor
Num desígnio nebuloso, omnipotente
"

 

E o desencanto, a negação surgem:

 

"Há, ainda, um remorso no senso comum:
Pátria reencontrada , em tempo algum"

 

O Poeta descreve o percurso de um Povo, recorda os tempos áureos das descobertas,  mas encontra a par da época gloriosa dos Descobrimentos a  sombra negra do Santo Ofício, a castradora Inquisição, com os seus autos de fé, os seus desmandos, e descobre também o ideal fanático dos cruzados, que  desejam impor o seu Deus ao mouro infiel, ideal que conduz à morte uma dinastia no deserto de Alcácer-Quibir.

 

E o novelo desenrola-se uma vez mais e estamos novamente na origem do Mito:

 

NA FORMA DE MITO  (PÁG.47)

 

Desaparecido o Homem

Toma lugar o Mito

Na voragem dos tempos

Que consomem estratégias

Místicos sinais, romagens

Enevoadas imagens...

 

Destronado o herói

Erguem-se cortejos de fé

Em cada dia ensombrado

À força do nosso querer

Feito de rogos de esperança

E futuros de bonança...

 

Desmontadas as virtudes

Dum Quinto Império anunciado

Ajustam-se todos os mapas

Dum Portugal arruinado

Na resignada trama de guerra

Perde-se a fama, o Rei, a Terra...

Julho 2008

 

 

Os Filipes são afastados, a Casa de Bragança inicia uma nova dinastia e o Poeta sente nascer em si uma nova esperança e escreve o Poema que dá o título ao livro:

 “Sei que voltas sempre"

 

Porém, o Poeta é lúcido, não se deixa vencer pelo reino da utopia e confronta-se com a fraqueza de um povo e, mais ainda, com a fraqueza de quem o governa e estabelece um triângulo arrasador entre D. Sebastião, D. João IV e D. João VI -  Dom Sebastião, o rei que arrastou  para a morte toda uma geração ilustre, D. João IV, que demorou a ser reconhecido internacionalmente como rei, e D. João VI que fugiu com a corte para o Brasil perante a ameaça das Invasões Francesas.  Este triângulo está na origem da perda da independência de Portugal e na perda de Grande parte do Império Colonial Português. Tudo isto está admiravelmente sintetizado no poema “Metamorfoses Encobertas” da página 56.

 

E o Sebastianismo - página 58

"campo de maldições

Sem qualquer esperança"

volta  a dominar um povo, descrente de si próprio, que acredita em milagres e apenas neles vê a solução para a sua insegurança.

 

Mas o Poeta recusa-se a aceitar estes estados d´alma depressivos, não se quer deixar vencer pelo mito e ergue-se combativo, luminoso numa outra esperança:

 

DIÁSPORA" (página 59)

 

A diáspora é um sortilégio
que se adoça na boca das pessoas
e expande mares espreguiçados
e florestas entrelaçadas
acalentadas pelos viajantes
nos cantares iluminados de Camões.
Nos aglomerados de templos
onde preces e luzes tremelicam
das velas enfileiradas
e as pessoas falam a lusitanidade
numa catarse/taramela de canções
de outros sons, outras semânticas
que EI-Rei D. Sebastião
não soube sublimar.
A língua é a congeminaçâo
(não traçada em fronteiras)
de diásporas feitas de mistura
de cores, de paladares, de cheiros
e de expressões, gestos
e sombras acolhedoras
feitas na panóplia de dialectos
essa continuada frescura
dos tempos que trazem alvoradas
de Pátrias, fustigadas
no traço de cada alfabeto
enriquecido pela longevidade. ,
As diásporas são frutos maduros
suculentos, que abrem a gula
e cativam o olhar.
A nossa diáspora, essa, vive a povoar
Todo esse mundo, em afectos de eternidade.
Agosto 2008 

 

Exorciza fantasmas, exalta outro “desejado - Sidónio Pais, morto com um tiro na Estação do Rossio -,  com fina ironia descobre um  “encoberto” em Oliveira Salazar e  exalta  Ramalho Eanes, o militar (outro desejado?) que soube traçar o rumo  firme da revolução de Abril aviltada pela desordem e insubordinação nos quartéis.

 

Com um fatalismo que é muito nosso, que gostamos de cantar as nossas mágoas, o nosso fado, o Poeta, depois de expor as chagas do “Mito”, acaba por se voltar para ele, ópio que nos tolda, que nos adormece, que nos transforma no “povo de brandos costumes” que somos.

 

No entanto, é num misto de fé e descrença (como o náufrago à deriva que se agarra à tábua de salvação) que se socorre do mito para manter viva a chama da esperança, perante o nevoeiro que invade novamente Portugal :

 

 

CRISPAÇÃO CREPUSCULAR (página 70)

 

Vou passando os dias a pedir
Um D. Sebastião
Num sortilégio a fazer sentir
Que é em vão.


Mas ando os caminhos
Tortuosos que os outros percorrem
Amarguradamente
E sem olhar para trás
Assusta-me o que se faz e não faz
Constantemente.


Os passarinhos
São tão alegres nos jardins que percorrem
Tão vistosos, tão puros
Que realmente
Na sua pureza são seguros
Dos canteirinhos
Onde pernoitam ouvindo águas que escorrem
Também cantando suavemente.

Porém não é essa a nossa vivência.
Nós empurramo-nos, atraiçoamo-nos
Sem dó dos outros, maltratamo-nos
Em constante incoerência.

A nossa vida não tem trinados
De passarinhos delicados
Mas sim gritos incontidos
Angustiados
Desiludidos.

 

Por isso arremesso ao chão
Toda a maldição
Que a vida nos oferece
Desdenhando
Do sofrimento que no coração
Cresce em crispação
Chorando

E vou por aí, e retraio
Em mim a revolta
Desse catraio que não volta
E se tornou no hoje, no agora
Sem noção do tempo, sem hora
Nas rugas encalhado
Num sol toldado
Crepuscular traiçoeiro
Onde o sonho, esse, é timoneiro
De tudo que há falhado.

Vou passando os dias a pedir
Um D. Sebastião
Num sortilégio a fazer sentir
Que é em vão.

Outubro 2008


Joaquim Carvalho falou dos desenhos inseridos no texto e congratulou-se com o a apresentação de mais um livro de Poesia de Mário Matta e Silva.
 
Mário Matta e Silva agradeceu à C.M. de Oeiras a cedência do espaço para o lançamento do livro, agradeceu a todos quantos tinham colaborado na apresentação e a todos os Amigos presentes.
 
Seguiu-se o recital dos "Jograis do Paço, composto por Maria Aguiar, Edite Gil, João Sá e Francisco Félix Machado, que disseram de forma primorosa poema de Matta e Silva.
 
Foi a primeira vez que ouvi o Grupo actuar e confesso o meu encantamento, a minha alegria por encontrar mais um Grupo de Jograis que, com saber e sensibilidade, sabe interpretar tão bem a difícil arte de dizer em conjunto.
São um valor com que os Poetas podem contar para a divulgação da sua Poesia. Muitos parabéns, por este recital excelente!
 
Maria Ivone Vairinho
Presidente da Direcção da APP 
publicado por appoetas às 05:51

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